A mulher que eu amo

A mulher que eu amo
Veio e roubou minha solidão
Sequestrou meus finais de semana
tornou-os os dias mais importantes da minha vida.

Tingiu meu coração com cores
Que eu nem sabia que existiam
E me pôs para dormir em sua cama
Depois de me beijar.

A mulher que eu amo
Me deu presentes de páscoa, aniversário e natal
E embora fossem quase sempre camisetas
Vinham sempre com um bilhete
Escrito pela mulher que eu amo

Confesso que certa vez
Lendo um destes bilhetes eu chorei
Por tanto amar essa mulher

A mulher que eu amo é uma boa conselheira
Para os que recebem sua amizade
Porque é ponderada e inteligente

Com essa mulher eu posso ouvir e ser ouvido
E ela comigo também pode sempre dizer o que pensa
Pois sabe que para mim nada é mais importante
Do que aquilo que é importante para a mulher que eu amo

Juntos nós somos duas crianças bobas
E um casal de velhinhos de mãos dadas
Caminhamos juntos e ela ri de coisas engraçadas
E me deixa feliz por faze-la feliz

Com essa mulher eu morarei em uma grande casa
Onde caibam milhares de livros e discos
ou numa casa pequena onde caiba nosso amor.

À noite essa mulher se deita preguiçosamente sobre o meu colo
E dorme enquanto lhe afago os cabelos
Nessa hora sem que ela saiba
Eu a observo e sei
Que a mulher que eu amo
É a mulher da minha vida.

E é por isso que olhando
Agora para essa mulher eu peço
Para que eu seja o homem da sua vida.

Jota Teles

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Segure as minhas mãos, Natalia

Segure as minhas mãos, Natalia
Deixe que eu a guie
Por uma estrada
Onde só o amor
Conhece as curvas

De um modo tão íntimo
Que sobre o teu busto
As minhas mãos sejam tuas
Que sobre o meu rosto
As tuas mãos sejam minhas

Segure as minhas mãos, Natalia
Para que elas não voem
Senão por entre os teus cabelos
Para que elas não toquem
Senão o teu sorriso

Na beira da praia de mãos dadas
Que nossos dedos enlaçados
Contem dias dos namorados
E depois de todos os dedos contados
Que venham os anos
E estejamos, como hoje e sempre
Lado a lado

Se tu queres me chamar de Amor

Se tu queres me chamar de Amor
Façamos por merecer a nomenclatura
Sejamos por merecer dois seres dignos
Do amor neste vocativo subentendido

Me deixa beijar novamente as tuas pernas
Me deixa conhecer mais profundamente
o teu sorriso
Me deixa, meu amor, me deixa
Ser pra toda vida teu escolhido

Deixa a tua casa sempre aberta
para que eu entre
E deixa os teus olhos sempre prontos
para que eu os fite
E tua pele mais macia para meu toque
E tuas histórias mais divertidas
pros meus ouvidos

Façamos este amor tão caudaloso
Ser de nossos espíritos o melhor signo
Façamos este amor, façamos
Para que tenhamos o próprio amor
Pelo qual nos nomeamos

Se tu queres me chamar de Amor
Me chama de amor como ninguém mais pode
Não terão mais serventia nossos nomes
Não terão mais utilidade outros apelidos

Que seja tudo ridículo
Me chama então de amor sem substantivo
Para que eu seja teu amante, teu amigo
Como as flores chamam de amor
A primavera em seu florescer irrestrito

Jota Teles

O verdadeiro amante

As flores não reclamam
Quando são arrancadas por amor
Não reclamariam se pudessem

Assim o verdadeito amante espera
Que sua vida se esgote
Para que se extingua
Em doçura inconstentável

O verdadeiro amante
voluntariamente se converte
Em sua própria aniquilação
Quando é atravessado pelo amor
e dança

Seu corpo é um veículo efêmero
Para a eternidade
Seus sentidos são ferramentas
Por onde sua vida se dilui
E sua existência é lenha
No fogo de sua servidão

Todos os mestres são vís
Menos o amor
Toda autoridade é ilegítima
Menos a autoridade do amor

O verdadeiro amante reconhece
Que toda a terra é infecunda
Sem o amor
E sacrifica-se na primavera
De sua própria mortalidade

Ele nada pede
que o amor não dê
E ele nada guarda
Para que o amor não acabe

Jota Teles

Tratado como um cão

(Um velho blues de uma história mais velha ainda)

Se eu não tinha o direito
De te falar o que eu falei
Também não tinha o dever
De te amar, mas eu te amei

O que eu ganhei em retribuição
Foi ser tratado como um cão

Lá na frente da sua casa, garota
Você lembra o que aconteceu
Pro nosso amor nascer
A nossa amizade morreu

Só que eu não quero mais
Ser tratado como um cão

Não, não, não, não, não, não, não
Não, não, não, não…

Você estava tão sozinha
Eu levantei sua auto-estima
Você me usou feito uma mulher
Mas se comportou feito uma menina

Um dia a vida te ensina
Que não se trata um homem como um cão

Fiquei sentado na sarjeta
Do lado de fora do seu portão
Porque o seu amor não passava
De um falso amor de estimação

Oh, mulher malvada
Até os cães tem coração
E esse vira-lata está cansado
De ser tratado como um cão

Não, não, não, não, não, não, não
Não, não, não, não…

Jota Teles

29 de janeiro

O pouco que sei sobre o amor não dá um verso
Mas transborda o meu coração
O pouco que sei sobre ela é quase nada
Diante da vontade de saber mais

Se eu gastar meio século conhecendo-a
Será um meio século bem gasto
Se eu contemplar meio segundo seus olhos
Viverei neste meio segundo o dobro das minhas primaveras

Ate agora temos nos limitado às palavras
Isso é pouco e eu preciso de mais
Mulher, eu vou ao teu encontro
E não deixo que entre nos existam nem telas, nem véus, nem cidades

Oponho-me a qualquer ideia que me afaste de você
E não me coloco diante de você de outra forma, senão inteiro
E não a aceito de outra forma, senão inteira
Quero com isso que você saiba quem eu sou
Para que eu saiba quem você é

Eu sei que existem certas coisas que só o tempo desenvolve
Acho isso muito bom e não tenho pressa
Mas não espero assim adiar o que já foi adiado
Se eu puder vê-la hoje, é hoje que eu quero vê-la
E se você puder estar comigo hoje, por que não estaria?

Versos do amor

Muito tem sido dito sobre o amor
É chegada a hora de praticá-lo

Compreendendo o que o homem é, não desejo ser outra coisa
Compreendendo o que o amor é, não desejo possuir outra coisa
Compreendo o que é a vida, me inscrevo nela
Sem dever à ninguém mais do que devo à mim mesmo

Esta geração tem produzido coisas realmente grandes
Reatores, auto estradas, a internet
A próxima geração produzirá coisas ainda maiores
Aguardo pela geração de homens e mulheres
que produzirá com o mesmo esforço um imenso amor uns pelos outros

O amor que uma mulher pode entregar à um homem
Este amor é bom e devemos celebrá-lo
O amor que uma vida pode entregar à todas as outras
Este amor é excelente e devemos praticá-lo ininterruptamente

Os grandes mestres tem nos guiado todos em direção ao amor
Na ausência física destes grandes mestres já sabemos para onde ir

Temos nos vestido de muitas coisas
Nossas agendas, nossas contas, nossas expectativas e lembranças
Estas são todas camadas sobre as nossas peles
O amor nos devolverá à nossa nudez original
Não tenhamos medo

A morte tem nos transformado em terra
E o tempo tem nos dividido em pátrias
A prática do amor nos fará superar o medo da vida e da morte
E a geografia do amor superará as fronteiras que inventamos

Quando praticarmos o amor
Os que hoje empunham armas se desarmarão
E suas mãos estarão livres para tocar o céu e a terra

A ternura será exaltada
E o amor falará ao amor
Através de nossas bocas

Jota Teles

Declaração de amor ao pé do ouvido

Eu te amo.
Dito isto… o que mais?
Somos duas crianças
E o mundo é um jardim para nossas brincadeiras

Quero casar contigo todos os dias
Quero mapear toda a sua pele
E fazer um catálogo de todas as suas pintas
E uma coleção de todos os seus perfumes
Que se esfregam no meu corpo

Quero também todos os seus sonhos pontiagudos
Quero sem aparar-lhes as arestas cravá-los em minha vida
Em nossa vida
E depois eu não quero mais nada

Eu te amo, e quando você me ama também
Nosso amor torna ilegítimo tudo o que não é amor

Jota Teles

Um poema sobre o amor

Para que mais um poema sobre o amor
se o que sinto já foi transcrito por milhares…
poetas, músicos, escritores e pintores?

Um sentimento exaurido pela humanidade,
com o mais simples despertar
e o mais óbvio fim.

Observado de todos os ângulos, perspectivas e maneiras.
Colocado à prova pelos cientistas e teóricos,
mas presente no coração de todos que o testam.

É estranho observar que mesmo com toda essa carga anterior,
toda experiência vivida e repassada, há quem sofra por amor.
Há quem se desespere e deixe de dormir.

Diminua sua capacidade de reflexão à apenas sua paixão.
Escute nas músicas, leia nos poemas e observe na arte,
não o que foi deixado para o futuro,
mas o que o aflige no presente.

Se há algo questionável, não é o amor,
mas a fragilidade do homem perante ele,
a cegueira que este o causa,
fazendo-o cair em tantas armadilhas conhecidas.

É como o veneno que mata, como álcool que inebria,
como a luz que cega e o sol que queima.
É inevitável, impreciso, doloroso e imprevisível.
Por isso é desnecessário mais um poema sobre o amor…