No dia da salvação não me salvem

No dia da salvação não me salvem
Se o mar não merece ser salvo
Se as pedras, o trigo, a selva
A névoa, os cravos, os peixes
Não merecem ser salvos
Eu também não mereço e não preciso

Olhando agora pela janela
Eu percebo que não pode haver um dia
Mais azul do que esse
E penso que a existência
Mesmo súbita, cortante, irreal e efêmera
Não requer nenhuma salvação
E quando anoitece eu não desejo outro céu
Acima da minha cabeça

Depois que aprendemos a não fazer o mal
Descobrimos que tudo é bom
E que na verdade não existe ser bom ou mal
Esta cisão entre dois polos satisfaz
somente a nossa linguagem
Mas além da nossa linguagem
Todas as coisas se encaixam perfeitamente
E são assim como são
Sem necessidade de salvamento

Meu velho amigo Jesus Cristo,
Dizem por aí que você vai voltar
E fará com seu Pai um grande julgamento

Você que não fez juízo das prostitutas
Por que faria juízo de mim?
Eu, que não sou melhor ou pior
Que as prostitutas
Sou também seu irmão

Meu velho amigo,
Eles pouco se lembram o que você disse
Sobre o amor
Mas do amor eu não me esqueço um segundo

Por isso quando você voltar
Se você tiver paciência pra voltar
Não te pedirei nada
Vou apenas te abraçar e dizer
“Que saudades, meu camarada”

No dia do julgamento
Se puderem, por favor
Me deixem renascer denovo menino
Para brincar com as coisas
Para gostar e cuidar das coisas
E inventar para elas nomes engraçados
Que elas não tinham antes

Me deixem ser o pequeno Adão
De um planetinha azul e distante
Crescendo entre o que sobrou
De um apocalipse alienígena

Pra lá conhecer os bichos e as plantas
Correr pelos campos
Escrever com tinta de sementes
Os primeiros poemas nas cavernas
Ocupar me de ter o que comer
E o que sonhar
E viver sorridente
Sem dinheiro ou bolsos

Até que um dia quando a puberdade vier
Trocarei uma de minhas costelas
Pelo início de uma nova civilização
Mas desta vez ao meu modo:
Sem pecados ou cobras traiçoeiras
Comendo livremente as maçãs do jardim
Para que a vida se perpetue

Deste jeito eu peço
Sem nenhum rancor ou raiva
Mas de espírito terno e manso
Para que ninguém se preocupe
Comigo no dia da salvação

Jota Teles

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Onde eu possa ver as estrelas

Dê 100 anos à um homem resignado e ele os viverá se arrastando
Me dê um dia para viver e eu quero vivê-lo até o talo
Sem perguntar se ele se chama segunda ou sexta feira

Com apenas um coração e um pouco de boa vontade
Não perguntarei ao mundo se ele me deixa viver
Vou à galopes rasgando vida adentro rumo a algum lugar
Onde eu possa ver estrelas

Jota Teles

Versos do amor

Muito tem sido dito sobre o amor
É chegada a hora de praticá-lo

Compreendendo o que o homem é, não desejo ser outra coisa
Compreendendo o que o amor é, não desejo possuir outra coisa
Compreendo o que é a vida, me inscrevo nela
Sem dever à ninguém mais do que devo à mim mesmo

Esta geração tem produzido coisas realmente grandes
Reatores, auto estradas, a internet
A próxima geração produzirá coisas ainda maiores
Aguardo pela geração de homens e mulheres
que produzirá com o mesmo esforço um imenso amor uns pelos outros

O amor que uma mulher pode entregar à um homem
Este amor é bom e devemos celebrá-lo
O amor que uma vida pode entregar à todas as outras
Este amor é excelente e devemos praticá-lo ininterruptamente

Os grandes mestres tem nos guiado todos em direção ao amor
Na ausência física destes grandes mestres já sabemos para onde ir

Temos nos vestido de muitas coisas
Nossas agendas, nossas contas, nossas expectativas e lembranças
Estas são todas camadas sobre as nossas peles
O amor nos devolverá à nossa nudez original
Não tenhamos medo

A morte tem nos transformado em terra
E o tempo tem nos dividido em pátrias
A prática do amor nos fará superar o medo da vida e da morte
E a geografia do amor superará as fronteiras que inventamos

Quando praticarmos o amor
Os que hoje empunham armas se desarmarão
E suas mãos estarão livres para tocar o céu e a terra

A ternura será exaltada
E o amor falará ao amor
Através de nossas bocas

Jota Teles

A vida

Olhem bem, a vida nos dá tudo e não nos cobra nada
Se um dia ela pede de volta esta pele emprestada
É porque na verdade nunca fomos proprietários dela
E há quem desperdice a vida com questoẽs da propriedade!
Como se um hóspede num albergue se quisesse passar por dono

Eu sentirei saudades da primavera
Mas ela certamente nao sentirá saudades de mim
Serei amanhã o meu filho
E depois de amanhã os filhos do meu filho serão como um dia fui
Como sentir saudades de quem está sempre por perto?

Se eu não tiver filhos, não importa
Não me faltarão os irmãos mais velhos
O sol e as estrelas maiores, o espaço supostamente vazio entre elas
A água, as cores, os sons, as sensações

Digam o que quiserem,
Uma vida é so um pequeno instante
Mas este pequeno instante impregna a eternidade
Passado este pequeno instante
Deixamos pra amanhã o que vai acontecer
Se vai acontecer ou não!

Não reside nisso solidão alguma
Moro em mim mesmo mas me habita todo o universo
Que nome eu mereceria se eu fosse realmente sozinho?
Não teria nome nenhum, não haveria nem linguagem
Nem fonética para o meu nome,
Nem a comida que meu corpo consome ou a energia que ele produz
Tudo isso é fruto de uma infinita colaboração

À parte isso, muito me intriga que eu possa sentir só a mim mesmo
Quando tantas e tantas vezes, constantemente,
Eu queria me sentir nos outros e os outros
Mas meu esforço só é capaz de mover a mim mesmo
(O que será que move meu esforco?)

E então sinto vontade de ser iluminado
E esta vontade me faz esquecer de que eu já o sou
Aí a Vida se encarrega de eternizar somente a minha luz
E esperar que a outra parte se desgaste e se repita

As vezes a vida parece ignorar a lógica
Os que se apaixonam demais pela lógica não entenderão a vida por completo
A lógica de um tempo é ridicularizar a lógica do tempo anterior
E as grandes questões, enquanto isso, passam inabaláveis pelas eras

Jota Teles

Pra não dizerem que nunca falo sobre Deus

Deus não quer emprego em igreja,
Não faz bico em funeral, casamento, velório ou batizado
Rí-se muito de tudo isso
E dança

Deus não gasta seu tempo existindo ou não existindo
Esta mera formalidade de escolher um dentre dois
É paixão da mente humana

Deus é a Liberdade que não precisa de nome
É a Verdade sem recipiente fixo
Como num sonho sem começo

Um homem ousou nomear-se Deus
Uma vez Deus, não se acreditava homem
Uma vez nomeado, já não podia ser Deus

Deus não espera ser entendido, escrito, dito
quantificado, assistido ou replicado
Isto que chamam de Deus por aí
Isto que só te causa Medo
Não passa de uma Zombaria

Deus não é senão o que Deus ainda vem a ser
Atemporal, não cria destinos como cria estações
Temporal, desfaz-se de todas as estrelas
E vem nascer num botão de rosa
É infinito em cada homem
É ínfimo como cada ser
E as crianças o chamam “Amor”

Teles Maciel

Um poema fica

I

Meu coração com meu coração luta
E assim vencido, ele vence
Me torno outro noutro dia
Que talvez seja esse
Em que sou lido

Tudo muda menos isso
Esta verdade de tudo mudar
Esta sensação de que passamos
Mas não apenas passamos
Deixa só um poema ser mais do que efêmero

Uma esperança, um milagre, uma revolução…
A vida vai encaixando cada um deles entre almoços
Jantares, e noites sem dormir
Amanhã serão outras as esperanças, os milagres
E as revoluções…
Só um poema fica

II

Mais do que tudo os nomes dos países mudarão
Como a fonética pros nomes divinos
As línguas das gentes, elas sim é que são divinas
Correm também na linha mentirosamente reta do tempo
Não ficam

Um poema fica
Nele eu não me reconheço
Mas reconheço o coração do homem, quase menino
Cheio de vida que o escreveu

Fica o poema
Que fique como um brinde ao herói
Que seja a nova chance para o beijo cancelado
Que mude as roupas, mas não ature o frio
E tenha a forma de cabelos femininos

Tudo passa
Um poema fica
Quem dera seja este

Teles Maciel

Eu e o que ganho

Eu, o que ganho?
Já que não sei o que quero
Eu, eu nada ganho
E à isto eu chamo vida

Eu que pouco tenho
Se algo mais tivesse
A isto chamaria nada

Queria naquele ponto sem gente
Esperar por um onibus qualquer
Que viesse dar em mim

Ainda assim
Eu porque nada ganho
Tudo pra mim é lucro
E tudo pra mim é vida

Teles Maciel

Quem me vê, se me olha

Quem me vê, se me olha
O que vê quem me olha?

Se me vê tranquilo demais
É que faz tempo que você só olha o mar próximo à orla
Se me vê demais agitado
É que não sabe que vim correndo e estava atrasado
Em tudo na vida

Extremamente exagerado ou um pouquinho humilde
Nú, sem rosto ou com muitos rostos no mesmo dia
Sinto que estou mal vestido de mim mesmo
Irreal por fora, me vejo de dentro

Trabalhando no comércio, olhando a mulher que passa
Nós é que passamos
Falando do dia, sussurando através do vidro
Sentindo sede, sentindo

Cabelos desarrumados e barba engraçada
Cumprimentando crianças
Parecendo olhar com verbo
E virar a cabeça com adjetivo
Me vejo de dentro e sorrio

Não preciso que me olhe de outro jeito

Teles Maciel