Segunda feira

Quanta ignorância! Quanto desperdício!
Pegar um belo dia de sol, empacotá-lo
E chamá-lo de segunda feira.

Os dias não precisam de nomes para existir,
Os dias apenas existem sem pedir permissão pro calendário.

Os homens é que inventam os nomes,
E depois apegados a esses nomes
Se esquecem nas suas segundas feiras
Que a vida não espera o feriado
Para passar.

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Dança das cadeiras

Dança das cadeiras

Éramos todos crianças
dançando em círculo ao redor de uma fogueira
O fogo da infância se extinguiu
Os meninos ganharam barbas
e as meninas se tornaram mulheres

Colocaram cadeiras no centro de nossa dança
E elas eram insuficientes para todos
Segundo as novas regras
Alguém sempre teria que ficar de fora

Uma das crianças, Carlos, tinha pouca disposição, mas seu pai conhecia alguém
que conhecia alguém no governo do estado
E deram para Carlos uma cadeira confortável para ficar sentado
Jeferson se sentou na cadeira de advogado,
era um bom menino, meus pêsames para ele
Mariana sentou-se numa cadeira de avião e foi viver a vida bem longe

E me mostraram que sua tão famosa liberdade
Era a liberdade de escolher uma dentre algumas
Cadeiras disponíveis

E quando eu disse que queria me sentar na cadeira
de Presidente, me disseram:
“Você é louco? Você não serve. É baixo demais, suas pernas são tortas
E seus pensamentos, sobretudo seus pensamentos
são todos estúpidos e perigosos.
Sente-se aqui nessa cadeira de comerciante.”

Existem ainda cadeiras onde não se sentam os negros
Os gays ou as mulheres
E chamam isso de ordem!

Pergunto: Eu que só sirvo para a rebeldia e para o amor
Sirvo para mais o que?
Nessa ‘ordem’, certamente pra nada!

Para o inferno com suas cadeiras!
Que elas estão todas amarradas em ideias antigas
Que eu já não posso mais engolir

Eu me sento onde eu bem quiser
Ou se eu não quiser eu não me sento
Saio por aí andando, correndo, pedalando
Ou quem sabe dançando
Até que um objeto chame minha atenção

E eu quero uma nova abolição,
Eu quero ser gente!
Não um porco que engordam pro Natal,
Não um cavalo que dominam com um chicote
Não o cordeiro em suas salas de aula
Gente, por favor… gente!

Vasto é este mundo  e
Tão caro é viver, tão caro é ser gente!
Passam eles com suas cadeiras
Há espaço pra todos nesta terra

E me importa tão pouco ser rico em qualquer coisa senão em vida
Eu é que não me deixo enganar
Quero pra mim as riquezas verdadeiras
E pra todos o que a vida pode dar de melhor
Seria o que senão o amplo espaço para seu desenvolvimento verdadeiro?

Jota Teles

É proibido ser gente nesta cidade

(Dedicado à população do Pinheirinho)

Esta cidade é nosso lar
E hoje nosso lar amanheceu em chamas
Como se não fosse domingo
Entraram por suas casas
Demoliram suas casas
Como se não fossem gente

Na pequena igreja daquele bairro
Já não havia missa
Foi também o Cristo desalojado
E posto à rua com os outros pobres

E os supostos líderes esperavam
que estas pessoas, pobres em tudo
Fossem também, como eles
Pobres em coragem
Em vão!

Foram expulsos pelos ratos
E irão dormir na lama
Mas não se tornaram ratos
como os covardes deste município

Mulheres, crianças, trabalhadores
Moradores, com empregos e desempregos
com sonhos, com seus erros e sua coragem
É deles a minha fraternidade

Hoje não se cumpriu a justiça
Amanhã aquela terra estará vazia
Seu único habitante: o capital

É proibido ser gente nesta cidade

Teles Maciel

Pequeno Retrato Social

I

Estudar feito uma mula a vida inteira
Se justifica, se te pagarão por isso
Trabalhar feito um asno toda a vida
Justifica-se, se é pra isso que te pagam
Mas sonhar, sonhar não
Isso não vale um puto

Onde neste mercado existe um humano inteiro?
Quem, sem esse uniforme foi um dia criança
E sonhou de graça sonhos que eram seus?

Velhos impotentes de 20 e poucos anos
Somos clientes de escolas, de academias
de clínicas, de televisões, de tudo que é fácil
Castrados aos 30, enterrados vivos aos 50
Consumimos igrejas e religiões em sacos plásticos

Nossos estômagos estão cheios de inconformidades
Nossos agendas estão cheias de nomes
Que contradição é esta em nos sentirmos vazios?

Andamos seguindo rastros até um abismo
Mastigamos a vida e ela parece amarga
Nos vomitamos de nossa própria identidade
Temos pudores inúteis e mãos trêmulas
Somos mendigos dentro de casa
E sentimos frio para sentirmos algo

Discurso sobre a burocracia

Tantas gavetas justificam estes tantos papéis
Que não justificam nada
Um rosto qualquer emoldurado num 3×4
Fita, sem saber, o olhar inerte do burocrata

Esqueçam tantos papéis!
Tirem nos todos os papéis e cada caneta com eles!
Escreveremos poemas com mesas e pratos
Diremos o que importa, o que não importa
Não deveria valer tanto esforço

Não carimbem em qualquer lugar
Inscrições estúpidas que digam
Que um homem vale um pão, que o outro vale só o miolo
O que é parte da vida é de todos que nasceram pra vivê-la
Ninguém implora pelo que tem direito nato
Se o país não for injusto

Mas ainda insistem estes papéis
Em mãos engorduradas e macias
Porque a máquina sempre come
E quando come, matem-se os egoístas
Só para se sentar com ela à mesa

Lei manca, muleta de papelão!
Tanto tempo para sexta
Trabalho dispensável: não é dispensável comer
Tanto tempo para uma cesta

Mas chega sempre a manhã
Tão silenciosa quanto a luz
Tão certa quanto está tudo isso errado
E se ouve o som do fogo em que se queimam velhos contratos
Para que renasça a dignidade do povo

Teles Maciel