Tratado como um cão

(Um velho blues de uma história mais velha ainda)

Se eu não tinha o direito
De te falar o que eu falei
Também não tinha o dever
De te amar, mas eu te amei

O que eu ganhei em retribuição
Foi ser tratado como um cão

Lá na frente da sua casa, garota
Você lembra o que aconteceu
Pro nosso amor nascer
A nossa amizade morreu

Só que eu não quero mais
Ser tratado como um cão

Não, não, não, não, não, não, não
Não, não, não, não…

Você estava tão sozinha
Eu levantei sua auto-estima
Você me usou feito uma mulher
Mas se comportou feito uma menina

Um dia a vida te ensina
Que não se trata um homem como um cão

Fiquei sentado na sarjeta
Do lado de fora do seu portão
Porque o seu amor não passava
De um falso amor de estimação

Oh, mulher malvada
Até os cães tem coração
E esse vira-lata está cansado
De ser tratado como um cão

Não, não, não, não, não, não, não
Não, não, não, não…

Jota Teles

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29 de janeiro

O pouco que sei sobre o amor não dá um verso
Mas transborda o meu coração
O pouco que sei sobre ela é quase nada
Diante da vontade de saber mais

Se eu gastar meio século conhecendo-a
Será um meio século bem gasto
Se eu contemplar meio segundo seus olhos
Viverei neste meio segundo o dobro das minhas primaveras

Ate agora temos nos limitado às palavras
Isso é pouco e eu preciso de mais
Mulher, eu vou ao teu encontro
E não deixo que entre nos existam nem telas, nem véus, nem cidades

Oponho-me a qualquer ideia que me afaste de você
E não me coloco diante de você de outra forma, senão inteiro
E não a aceito de outra forma, senão inteira
Quero com isso que você saiba quem eu sou
Para que eu saiba quem você é

Eu sei que existem certas coisas que só o tempo desenvolve
Acho isso muito bom e não tenho pressa
Mas não espero assim adiar o que já foi adiado
Se eu puder vê-la hoje, é hoje que eu quero vê-la
E se você puder estar comigo hoje, por que não estaria?

Onde eu possa ver as estrelas

Dê 100 anos à um homem resignado e ele os viverá se arrastando
Me dê um dia para viver e eu quero vivê-lo até o talo
Sem perguntar se ele se chama segunda ou sexta feira

Com apenas um coração e um pouco de boa vontade
Não perguntarei ao mundo se ele me deixa viver
Vou à galopes rasgando vida adentro rumo a algum lugar
Onde eu possa ver estrelas

Jota Teles

Versos do amor

Muito tem sido dito sobre o amor
É chegada a hora de praticá-lo

Compreendendo o que o homem é, não desejo ser outra coisa
Compreendendo o que o amor é, não desejo possuir outra coisa
Compreendo o que é a vida, me inscrevo nela
Sem dever à ninguém mais do que devo à mim mesmo

Esta geração tem produzido coisas realmente grandes
Reatores, auto estradas, a internet
A próxima geração produzirá coisas ainda maiores
Aguardo pela geração de homens e mulheres
que produzirá com o mesmo esforço um imenso amor uns pelos outros

O amor que uma mulher pode entregar à um homem
Este amor é bom e devemos celebrá-lo
O amor que uma vida pode entregar à todas as outras
Este amor é excelente e devemos praticá-lo ininterruptamente

Os grandes mestres tem nos guiado todos em direção ao amor
Na ausência física destes grandes mestres já sabemos para onde ir

Temos nos vestido de muitas coisas
Nossas agendas, nossas contas, nossas expectativas e lembranças
Estas são todas camadas sobre as nossas peles
O amor nos devolverá à nossa nudez original
Não tenhamos medo

A morte tem nos transformado em terra
E o tempo tem nos dividido em pátrias
A prática do amor nos fará superar o medo da vida e da morte
E a geografia do amor superará as fronteiras que inventamos

Quando praticarmos o amor
Os que hoje empunham armas se desarmarão
E suas mãos estarão livres para tocar o céu e a terra

A ternura será exaltada
E o amor falará ao amor
Através de nossas bocas

Jota Teles

Dança das cadeiras

Dança das cadeiras

Éramos todos crianças
dançando em círculo ao redor de uma fogueira
O fogo da infância se extinguiu
Os meninos ganharam barbas
e as meninas se tornaram mulheres

Colocaram cadeiras no centro de nossa dança
E elas eram insuficientes para todos
Segundo as novas regras
Alguém sempre teria que ficar de fora

Uma das crianças, Carlos, tinha pouca disposição, mas seu pai conhecia alguém
que conhecia alguém no governo do estado
E deram para Carlos uma cadeira confortável para ficar sentado
Jeferson se sentou na cadeira de advogado,
era um bom menino, meus pêsames para ele
Mariana sentou-se numa cadeira de avião e foi viver a vida bem longe

E me mostraram que sua tão famosa liberdade
Era a liberdade de escolher uma dentre algumas
Cadeiras disponíveis

E quando eu disse que queria me sentar na cadeira
de Presidente, me disseram:
“Você é louco? Você não serve. É baixo demais, suas pernas são tortas
E seus pensamentos, sobretudo seus pensamentos
são todos estúpidos e perigosos.
Sente-se aqui nessa cadeira de comerciante.”

Existem ainda cadeiras onde não se sentam os negros
Os gays ou as mulheres
E chamam isso de ordem!

Pergunto: Eu que só sirvo para a rebeldia e para o amor
Sirvo para mais o que?
Nessa ‘ordem’, certamente pra nada!

Para o inferno com suas cadeiras!
Que elas estão todas amarradas em ideias antigas
Que eu já não posso mais engolir

Eu me sento onde eu bem quiser
Ou se eu não quiser eu não me sento
Saio por aí andando, correndo, pedalando
Ou quem sabe dançando
Até que um objeto chame minha atenção

E eu quero uma nova abolição,
Eu quero ser gente!
Não um porco que engordam pro Natal,
Não um cavalo que dominam com um chicote
Não o cordeiro em suas salas de aula
Gente, por favor… gente!

Vasto é este mundo  e
Tão caro é viver, tão caro é ser gente!
Passam eles com suas cadeiras
Há espaço pra todos nesta terra

E me importa tão pouco ser rico em qualquer coisa senão em vida
Eu é que não me deixo enganar
Quero pra mim as riquezas verdadeiras
E pra todos o que a vida pode dar de melhor
Seria o que senão o amplo espaço para seu desenvolvimento verdadeiro?

Jota Teles

A vida

Olhem bem, a vida nos dá tudo e não nos cobra nada
Se um dia ela pede de volta esta pele emprestada
É porque na verdade nunca fomos proprietários dela
E há quem desperdice a vida com questoẽs da propriedade!
Como se um hóspede num albergue se quisesse passar por dono

Eu sentirei saudades da primavera
Mas ela certamente nao sentirá saudades de mim
Serei amanhã o meu filho
E depois de amanhã os filhos do meu filho serão como um dia fui
Como sentir saudades de quem está sempre por perto?

Se eu não tiver filhos, não importa
Não me faltarão os irmãos mais velhos
O sol e as estrelas maiores, o espaço supostamente vazio entre elas
A água, as cores, os sons, as sensações

Digam o que quiserem,
Uma vida é so um pequeno instante
Mas este pequeno instante impregna a eternidade
Passado este pequeno instante
Deixamos pra amanhã o que vai acontecer
Se vai acontecer ou não!

Não reside nisso solidão alguma
Moro em mim mesmo mas me habita todo o universo
Que nome eu mereceria se eu fosse realmente sozinho?
Não teria nome nenhum, não haveria nem linguagem
Nem fonética para o meu nome,
Nem a comida que meu corpo consome ou a energia que ele produz
Tudo isso é fruto de uma infinita colaboração

À parte isso, muito me intriga que eu possa sentir só a mim mesmo
Quando tantas e tantas vezes, constantemente,
Eu queria me sentir nos outros e os outros
Mas meu esforço só é capaz de mover a mim mesmo
(O que será que move meu esforco?)

E então sinto vontade de ser iluminado
E esta vontade me faz esquecer de que eu já o sou
Aí a Vida se encarrega de eternizar somente a minha luz
E esperar que a outra parte se desgaste e se repita

As vezes a vida parece ignorar a lógica
Os que se apaixonam demais pela lógica não entenderão a vida por completo
A lógica de um tempo é ridicularizar a lógica do tempo anterior
E as grandes questões, enquanto isso, passam inabaláveis pelas eras

Jota Teles

Rimas de estrada

Ficar quando eu quero partir
Partir quando eu quero ficar
Meu coração é bicho da estrada
Que só se encanta com o mar
(E as vezes com uma mocinha
Que insiste em aqui passar)

Meu espírito é bicho selvagem
Dos que não se deixam domar
Pras mesquinharias da vida
Diz “Dá licença que eu vô passar!”

Quem fez esse Terra imensa
E fez esse tempo tão grande
Por que não fez um cantinho
Em que eu coubesse um instante?

Jota Teles

 

Declaração de amor ao pé do ouvido

Eu te amo.
Dito isto… o que mais?
Somos duas crianças
E o mundo é um jardim para nossas brincadeiras

Quero casar contigo todos os dias
Quero mapear toda a sua pele
E fazer um catálogo de todas as suas pintas
E uma coleção de todos os seus perfumes
Que se esfregam no meu corpo

Quero também todos os seus sonhos pontiagudos
Quero sem aparar-lhes as arestas cravá-los em minha vida
Em nossa vida
E depois eu não quero mais nada

Eu te amo, e quando você me ama também
Nosso amor torna ilegítimo tudo o que não é amor

Jota Teles

Poesia da emoção

De todas as poesias que eu não escreví
Existe uma que eu mais queria ter escrito
Esta, a sem metáfora alguma
A que anda sem rima pelo labirinto do meu peito
A irmã mais velha das línguas
Que veio de brinde com os corações das mulheres e dos homens
E dos bichos, e das plantas, das inúmeras flores e do mar

Essa que faz soar mais alto, mais forte e mais belo
Tudo que pode soar alto e forte e belo
A que foge escondida das escolas e rasga os livros de ortografia
E que não tem decote em que não esteja

A que nos representava antes da democracia
E que nos casava antes da religião
Essa, sim, essa!
A que torna engano cada palavra
E enganosa cada canção

Pois a palavra não é nada!
E entender as coisas sem os nomes das coisas
É chupar o verdadeiro sentido da vida

Me perdoem os filósofos
Um tempo atrás eu era como vocês
Um homem de sábias palavras

Hoje eu apenas me sento sozinho
Olho as estrelas e penso sobre minha poesia não escrita:
Extinto esse mundo, que outros mundos ela deverá criar?
E extinta essa raça? E extinta essa língua?
As horas passam e eu não a escrevo

Eis que é esta
A inescrevível poesia da emoção