Sp invisível

Sp invisível
Eu parado num canto
Engolindo o pranto
Esperando passar

As horas, os dias
As semanas, as filas
Essa gente mesquinha
a me desdenhar

Sou pacato, tranquilo
Bebo meu passatempo
caso a noite o tormento
Eu não aguentar

São passadas novelas
guarda-chuvas e janelas
Passarelas ou vielas
onde vou me enfiar

E na noite tão fria
não tão quanto de dia
Eu me aqueço num canto
e não me esqueço do canto
Para não mais chorar

Essa é uma singela homenagem à página https://www.facebook.com/spinvisivel

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Grita lá fora meu coração

Este mundo é minúsculo
E meu coração é gigantesco
Minha casa tornou-se inabitável
E chegou a hora de partir

Quero que chova dentro de minha casa
Que a minha casa sou eu
E eu sou apenas água a desejar fluir

Ouco um chamado no portão
“Vem José” grita lá fora meu coração
Eu o atendo e partimos
De braços dados com o mundo

A sorrir e a brincar
Levo comigo a mulher perfeita
Mulher que tem nos olhos
Qualquer coisa como o anúncio
De um dia que começa bem

Outros ficarão para cumprir as tarefas
Que me disseram serem minhas
Embora eu acredite que a principal tarefa de um homem
É ser apenas um verdadeiro homem
E a principal tarefa de uma mulher
É ser apenas uma verdadeira mulher
E que não exista tarefa mais urgente
Do que viver com o coração

Trago na mochila aquilo que cabe
Aquilo que não cabe trago no espírito
E me derramo vivo
Na estrada por onde passo

Nesse caminho
Se eu não chegar a ser livre
Que eu seja escravo somente de um mestre
Sublime e bom
E o único mestre sublime e bom que eu conheço
É o meu próprio coração

Jota Teles

Poesia da emoção

De todas as poesias que eu não escreví
Existe uma que eu mais queria ter escrito
Esta, a sem metáfora alguma
A que anda sem rima pelo labirinto do meu peito
A irmã mais velha das línguas
Que veio de brinde com os corações das mulheres e dos homens
E dos bichos, e das plantas, das inúmeras flores e do mar

Essa que faz soar mais alto, mais forte e mais belo
Tudo que pode soar alto e forte e belo
A que foge escondida das escolas e rasga os livros de ortografia
E que não tem decote em que não esteja

A que nos representava antes da democracia
E que nos casava antes da religião
Essa, sim, essa!
A que torna engano cada palavra
E enganosa cada canção

Pois a palavra não é nada!
E entender as coisas sem os nomes das coisas
É chupar o verdadeiro sentido da vida

Me perdoem os filósofos
Um tempo atrás eu era como vocês
Um homem de sábias palavras

Hoje eu apenas me sento sozinho
Olho as estrelas e penso sobre minha poesia não escrita:
Extinto esse mundo, que outros mundos ela deverá criar?
E extinta essa raça? E extinta essa língua?
As horas passam e eu não a escrevo

Eis que é esta
A inescrevível poesia da emoção

Uma xícara de café

E em nome da felicidade eu lhe tomo
os males do cansaço me espantas
passa de bebida à poção,
de preguiça à tensão.

Um gole de êxtase instantâneo
e me embriago de lucidez
num ritual discreto,
mas repleto de magia.

E depois de tantas doses,
num movimento transformado em reflexo,
tenho meu cuspe escurecido
pelos seus grãos torrados.

Aos homens que o encontraram,
aos homens que o plantaram,
aos homens que o colheram e
aos homens que o torraram.

Grato, bebo e faço dessa
minha dose diária
de tudo aquilo que preciso
no meu dia de operário.

Vem pro Sul, Marie

Vem pro Sul, Marie


Marie, com teu sobrenome de tribo e de bicho
Os teus lábios são as bandeiras vermelhas
onde eu guardo os meus sonhos
Os teus seios são os países que virão
Onde não haverão nem reis, nem súditos, nem empregados, nem patrões
E a minha língua é o povo livre
Que estes teus novos países precisarão

Vem pro sul, Marie
Coloca numa mala um dia de domingo do teu Pará
E em outra um punhado de teus sorrisos
E vem

O Vão.

Entre a igreja e a boemia
existe um vão.
Nesse vão não se vê insanidade,
nesse vão não se vê religião.

É provável que nesse vão
haja tristeza, medo,
incerteza talvez
e é nele que me encontro.

Longe da cegueira etílica
e dos que a pregam para o irmão,
mas perto de um ponto em comum
entre a destreza e a cética razão.

Aquele que é proprietário de tudo
E não ama
Tudo lhe falta
Mas aquele que não é proprietário de nada
Porém verdadeiramente ama
Para este não falta nada
Mesmo uma represa de alegrias
É uma represa triste
As coisas que se estagnam
Fazem mal ao coração

Aprenda a viver como o rio
Deixe a flor onde a encontrou
E reconheça a beleza de tudo
Na beleza da flor

Teles Maciel

Um milhão de coisas à serem feitas

1.

Um milhão de coisas à serem feitas
E tão limitado é o tempo para fazê-las
Por que eu haveria de seguir manuais
Que me digam o que fazer do meu tempo?

O caminho é estreito
E é largo demais o pensamento
É preciso atirar longe à análise da vida
Aquele que estiver realmente disposto
À viver

O que eu sei sobre mim
Eu posso saber sobre vocês também
E apenas ver por fora a palavra
Confundiria todo o aprendizado

Nascido incompleto
Do ventre incompleto do mundo
Sei que miserável é o homem
Que se diz completo sendo sozinho

Não trago comigo minha lista de afazeres
Nem cobro de você que me apresente a sua
Não reconheço um patrão entre dois homens
Eu só vejo homens, líderes e irmãos

Não irei dizer que a filosofia é inútil
Pelo vão de qualquer idéia
Eu posso fazer uma porta
Deste ponto ao quase infinito

2.

Passou por mim dançando no vento …

Passou por mim dançando no vento
Uma poeira do ser que sou e não sabia
E eu a seguí por dentro e por fora das casas
Por debaixo e através da lua gigante
Propus a mim mesmo um desvio leve
E engoli a boca que não me pertencia
Isto importa? Quem sabe isto importe
Mais do que a poesia
Teles